Empresas de aventura, lucro e despreparo

Meu nome é Thiago Souto, e pratico escalada em rocha a mais de 2 anos. Comecei a escalar, em rocha, através de um curso básico de escalada, ministrado por um instrutor bastante experiente (mais de 10 anos de experiência com atividades ligadas ao montanhismo). É nesse contexto, que me deparo com um mercado cada vez mais efervescente de empresas de aventura na nossa cidade, que comumente declaram em suas atividades que os guias são “experientes”.

Vou me limitar a falar aqui do montanhismo, que inclui escalada, rapel e caminhadas.

Em primeiro lugar, pessoas experientes, em Santa Maria, com capacidade de levar pessoas para escalar em rocha e realizar rapéis, com segurança, são apenas duas. Os auto-proclamados “guias experientes” certamente foram alunos de um dos dois. As atividades oferecidas em Santa Maria pelas empresas de aventura, incluem em seu portfólio, pessoas que realizaram cursos, seja de rapel ou de escalada, a muito pouco tempo. Às vezes até mesmo, essas pessoas criam suas próprias empresas. Dessa forma, um mercado cada vez mais competitivo vem crescendo, e essas empresas passam a realizar atividades, que pessoas ligadas ao meio, sabem que não são capacitadas para isso.

Até o momento, não existe uma lei que regulamente essas empresas; que ditem quais são as competências que um guia deve ter. Não existe uma carteira de habilitação para guias de montanha. O único órgão que procura organizar esses serviços é a ABETA (Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura), mas não existe nenhum tipo de fiscalização dos profissionais que oferecem o serviço. Basta associar-se, pagar mensalidade, e a empresa pode se declarar filiada à ABETA. De qualquer forma, nenhuma das empresas de Santa Maria é vinculada à essa associação.

Confiamos então apenas na propaganda de empresas que escolhem qualquer um, com o mínimo de conhecimento, para guiar pessoas que buscam essas atividades. Ao contrário do que é pregado por aí de que “montanhismo não é perigoso”, “não precisa ter medo”, “é muito seguro”, eu lhes digo, com o pouco que aprendi nesses dois anos: é óbvio que montanhismo é perigoso, é óbvio que qualquer acidente pode ser fatal. Montanhismo só é seguro se praticado com RESPONSABILIDADE, com CONHECIMENTO e EXPERIÊNCIA, e isso deve ser passado às pessoas que querem praticá-lo.

Acredite, não estou ganhando um centavo escrevendo isso, muito menos tentando parecer o dono da verdade. Estou alertando que simplesmente, não é bem assim guiar pessoas em ambientes de montanha. Não basta um curso básico para obter-se o conhecimento necessário para tal. Chegar a um setor de escalada, montar um Top-Rope, e garantir horas de satisfação de um cliente é muito prático e fácil. Agora, se responsabilizar com todos os riscos dessa atividade, e saber agir em caso de acidente é outra história. É necessária uma formação completa e abrangente, e principalmente, muita experiência. Em anexo, para download, está o currículo necessário, recomendado pela CBME (Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada), para que a pessoa seja considerada guia de montanha (e possa cobrar por tal serviço).

Quando realizares uma atividade com uma dessas empresas, informe-se; verifique se a pessoa é realmente qualificada; tire todas as suas dúvidas.

Boas escaladas!

Guia de Montanha Voluntário – Padrão CBME

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7 Respostas para “Empresas de aventura, lucro e despreparo

  1. Pingback: Empresas de aventura, lucro e despreparo ‹ naokiarima.com·

    • Cara! É uma satisfação ver um post meu no seu blog, que acompanho regularmente a quase 2 anos já! Obrigado pelo comentário.

      PS: Tem um véio gaudério lá em Caçapava com saudade de ti. hehe

      Abraço!

  2. É bem por essas mesmo meu velho.
    Hoje tem um bando de gente ai vendendo este tipo de serviço. Entre outubro de 2004 e março de 2005 morreram 06 turistas no Brasil nas mãos destes “vulgos” guias.
    Muito bom o texto.
    Parabéns.

  3. É mermão! Falou e disse! O dia que alguém falar que discorda de uma virgula do seu texto, pode ficar tranquilo que ele está do lado de lá, no lado negro da força… e que tem outros milhares de escaladores de verdade pelo Brasil que tem a mesma opinião que você! (eu inclusive já trabalhei com isso, e te falo que é exatamente isso que ocorre) muito foda ter que lidar com gente que da noite pro dia vira “guia de montanha” e o pior, pra ganhar 1/4 do que quem tem experiência e o devido treinamento merece.
    Um abraço!

  4. O meu respeito aos escaladores de Santa Maria . Aos ditos “guias de Montanha” devem ler todos os cadernos da ABETA e avaliarem seus conhecimentos para saberem se realmente são CONDUTORES DE TURISMO DE AVENTURA.
    Parabens pelo testo Thiago Souto!
    Att. Renato Pâncaro

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